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Crônica: Vida Engarrafada

Por Leonardo Azevedo

Acontecem todos
os dias, sem nenhuma trégua, correria, barulho e falta de tempo, que são os
ingredientes da cidade. É assim em todo lugar onde o chão é de concreto e as
paredes de vidro, com o reflexo da “selva de pedra”. A corrida até em casa,
que, nesses momentos, torna-se um refúgio, é dura e exaustiva e o que era para
ser um simples dever diário transforma-se em uma difícil tarefa.

No início da
noite, a cidade se revela e mostra sua face, o contraste das luzes amarelas e
vermelhas ilumina o que parece ser uma infinita estrada, agora parada. Ao longo
dela, é possível ver aquele conglomerado de gente, que se reúne em pequenos
abrigos, são mais de meio milhão de pessoas à espera de algumas centenas de
ônibus coloridos, mas em breve limão, cor escolhida para os novos veículos que
substituirão a antiga frota. Quando eles não aparecem, a angústia só aumenta e
as perguntas desagradáveis começam a surgir: o que foi? Perguntam-se uns aos
outros.

Quando o
anormal não existe, a viagem inicia. O trajeto para todo lugar é complicado,
mas a prova de resistência acontece mesmo é no trajeto que vai do coração da
cidade até os bairros da região metropolitana. Basta o mínimo de atenção para
ver aquelas pessoas suadas, cansadas, com sede… Já chega. Mas, “boa vida não
quer pressa”. No longo corredor, as vozes se misturam e as conversas também,
embaladas pela melodia frenética das buzinas. É o horário de pico e chego a
gastar mais de duas horas até em casa.

A alegria, que
nunca pega carona, desaparece na medida em que a velocidade diminui e que,
nessas horas, quase nunca atinge a média dos 60 km/h dos coletivos.
 Quando tudo para, tem-se a sensação que todos foram vencidos pelo
cansaço, estampado nos rostos pálidos que lançam um olhar inútil de fuga para o
lado, para o chão, para o teto. No túnel, já noite, o silêncio é ensurdecedor e
preenche os espaços que insistem em existir.

A maioria das
pessoas, que está em pé, com as mãos fixas na barra de metal presa ao teto
quase em oração, apoia as cabeças, denunciando o sono da noite anterior. Já as
que estão sentadas têm a companhia do celular, fiel companheiro e necessário
aos inquietos até o fim da viagem.

Com o passar do
tempo, o espaço vai surgindo e a rapidez vai aumentando. Aos poucos, as
conversas, em um tom ainda sutil, vão aparecendo. Como já é bairro, rostos já
vistos antes aparecem com maior frequência; de um a um ou de grupo em grupo,
eles vão descendo para uma rápida caminhada até o seu ponto final. Acabou por
hoje, mas amanhã se repete tudo outra vez.

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